Carlos Alberto KirmayrKirmayr - Comecei a jogar e treinar tênis ainda no infanto-juvenil. Em primeiro lugar, por amor ao esporte. Mas, já sabia que o tênis profissional não tinha muito horizonte. Se hoje é fechado, antes era mais ainda. Quando eu tinha mais ou menos 20 anos, morava e estudava nos Estados Unidos e vim passar férias no Brasil. Ganhei um torneio e entrei na equipe brasileira da Copa Davis. Foi aí que percebi que eu tinha, inclusive, nível técnico para ter uma chance. Achei que poderia ser um profissional e gostei da idéia.
K - Não foi um sonho de criança. Gostava do esporte e admirava os ídolos que eu tinha.
K- Eu estudava Marketing como primeira cadeira e Educação Física como segunda.
K - Percebi e tive a chance. Ganhei uma passagem e fui pra Europa. Aí eu disse: “É isso que eu quero”.
K - Não, naquela época ainda não existia isso.
K - Na família. Meu pai era do esporte, a vida dele sempre foi esporte. Meu avô também tinha sido professor de educação física. Sempre freqüentava os clubes com meus pais. Primeiro o Banespa, depois o Indiano, em São Paulo, capital. Eu ia atrás, sempre ficava pelas quadras esportivas.
K - Olha, não teve muita coisa de diferente. Porque o meu dia-a-dia já era do esporte, era saudável. Passava muitas horas fazendo esporte, me exercitando, tinha o hábito de dormir cedo e de me alimentar bem. Então, não mudou muito. O que mudaram foram as minhas preocupações, pois na época de universitário, eram a escola e o tênis. Já quando acabou a universidade, era só o tênis. A partir daí ficava duas vezes mais em quadra do que ficava antes.
K - Não, isso aconteceu muito mais tarde. Na verdade, técnicos como os de hoje, não existiam. Essa história de técnico acompanhar jogador, e de cada jogador ter o seu técnico é novidade, coisa do mundo milionário.
K - Eu dividiria a minha vida profissional em duas partes. Uma parte, foi a do puro amor e do estilo de vida, viajar e fazer tudo do meu jeito. A outra parte, foi a que mudou a minha atitude e me tornou um jogador profissional diferente. Foi quando aos 27 anos, eu consegui um patrocinador, montamos uma equipe e então eu passei a ter um técnico, o Paulo Cleto, quem realmente me ajudou. A partir dali eu já não brigava sozinho, tinha um mentor para, inclusive, lapidar coisas que eu não via. Coisas que eu não queria ver, ele via; coisas que eu queria fazer do meu jeito, ele me aconselhava a fazer de outro jeito. Ele dizia: “Assim você vai ficar patinando, faz do outro jeito”.
Então, a possibilidade de ter tido um técnico e um patrocinador na época que eu tive fez toda a diferença, inclusive em me levar ao nível que eu acabei chegando, ao melhor que eu pude chegar. Ter um técnico, naquele momento, me deu um status de potencializar toda a experiência que eu já tinha e todas as horas em conhecimento que tinha adquirido. Com um mentor me ajudando a pensar, trabalhar e tomar decisões mais profissionais.
K - Não tinha nenhum sacrifício para mim. Quando acabava o torneio ou se eu já estava fora, a minha motivação era: "Para onde eu vou agora", " Qual o próximo hotel”, “Como vai ser o meu quarto?”.
K - Isso é verdade, na área do esporte tudo acontece muito mais cedo mesmo. Quem jogava na época que eu joguei, jogava porque amava o esporte e o estilo de vida, dinheiro não tinha. O estilo de vida era legal, afinal quem naquela época tinha dinheiro para passar um ano fora pelo mundo? Era o começo do tênis profissional, os prêmios eram muito menores, então dinheiro como jogador profissional eu não ganhei, trocava seis por meia dúzia. Valeu a pena pelo prazer do estilo de vida, pela experiência que eu acabei tendo e pelas pessoas que eu conheci. Essa foi a parte valiosa daquele momento. O dinheiro começou a ser um pouquinho melhor como técnico.
K - Já, nessa época, tinha o desejo e o sonho de ser o que eu sou hoje. Antes mesmo de chegar a algum lugar como profissional, eu já tinha uma participação em uma academia de tênis em Brasília. Que era justamente a sementinha do que acontece hoje em Serra Negra. Eu me empenhei em conhecer a parte técnica de ser treinador, de ensinar ( eu tinha 22 ou 23 anos). Eu nem jogava direito ainda, em relação ao que eu acabei jogando, mas já tinha a visão de que um dia eu iria parar. Não sabia quanto tempo iria demorar, mesmo porque, quando se é esportista, a situação é muito frágil, você pode torcer o pé e nunca mais jogar. Então, eu sempre sonhei em ser treinador.
K - Decidi porque estava querendo outras coisas, eu já estava patinando, e estava sendo o 100/120 do mundo, enfim, eu não ia mais para frente. Aí eu parei um ano, quando a Nathalie, minha filha, nasceu. Aí, por voltar ao circuito como técnico de outro jogador, eu voltei a jogar e joguei por mais 3 anos.
K - Não tenho uma lembrança específica. Eu acho que o mais importante foi o prazer de ter fechado o ciclo inteiro. De ter jogado sozinho e em duplas. O todo, o poder de ter sido um tenista profissional. Tive grandes vitórias, momentos de reconhecimento, como poder representar o Brasil em Copas Davis, isso era maravilhoso. Quando eles tocavam o hino, eram lágrimas nos olhos, momentos de emoção até hoje.
K - Se ele é “duro” sim. Se ele já tem alguns milhões acho difícil (entre risos). Eles entram pelo desafio, para quebrar recordes, por orgulho próprio, enfim.
K - Veio muito natural, pois eu sempre pensei que isso aconteceria. Desde o momento em que viemos para Serra Negra, que eu via a molecada começando a jogar, e eu ainda jogava, comecei a orientar. Veio muito natural, passar experiências, informações que eu tinha da minha própria visão do jogo para os outros. Não me senti recalcado, sempre me senti bem.
K - O bom é quando você tem um jogador ou uma jogadora que estão afim, que querem, que estão sempre prontos pra te ouvir, que não relutam em abrir a guarda, abrem e são receptivos, tentam fazer o que você está orientando, e assumem a responsabilidades e os riscos. E não culpam o técnico. E é claro que cabe ao técnico também ver como é essa pessoa, qual a linha de comunicação dela.
K - Treinei o Ricardo Camargo, Cássio Motta, Vanessa Menga, Flávio Camargo, Dácio Campos, José Amin, entre outros importantes.
K - Gabriela Sabatini, Arantxa Sánchez, Conchita Martinez, Cedric Piolin, Nicolas Pereira, entre outros.
BP - Como você vê a sua fase profissional atual, aqui em Serra Negra, que você tem um centro de treinamento para jovens que estão iniciando no tênis?K- Na verdade eles estão iniciando a parte séria, já treinaram um pouco, já tem uma noção e agora fazem parte de dois programas. Um programa para o tênis profissional, com algumas meninas que estão aqui com este objetivo. E tem o programa que é justamente o que eu fiz, que é o programa universitário. Inicialmente, pelas dificuldades de se tornar profissional aos 18 anos e não ter a grana que é necessário para se bancar 4 ou 5 anos lá fora. Esse dinheiro que precisa, após os 18 anos, tem que ser entre 200, 300 mil dólares. Poucos são os que têm e se não existe um patrocinador que o faz, dificilmente vão conseguir. O que o programa de estudo universitário americano faz, é bancar 4 anos de estudo, dá uma bolsa, paga tudo, e o estudo é superinteressante . Aqui preparamos o aluno, que quer ser um profissional, ele fica qualificada para seguir o seu caminho via bolsa de estudo nos EUA, que vai ser o seu veículo para se manter durante um tempo para ir para o circuito. Aí ele está preparado para adquirir maturidade, experiência que precisa, que raros são os que conseguem atingir a carreira profissional. As universidades pagam esses 4 anos de vida, que o jogador continua treinando, jogando, mais um calendário competitivo bem desafiante, sério, profissional.
K - Hoje, aqui, tenho um centro de treinamento especializado em dar tudo que o jogador precisa e mantê-lo o máximo de tempo na quadra. Com isso conseguimos diminuir o tempo para o jogador chegar lá. O grande desafio, agora, é antecipar a profissionalização dos jogadores, com mais horas de treinamento.
K - Acho. Quando o jogador quer se tornar profissional, e ele já tem uma grana, ou também se já é bom aos 18 anos, em qualquer uma dessas hipóteses ele tem que sair do país. Jogar aqui no Brasil, geralmente não se sustenta. O circuito viaja o mundo inteiro, tem que ir atrás desses torneios, aqui não tem torneios suficientes.
K - Olha é um tênis social. É para pessoas que não vivem de tênis, mas que amam o esporte e que tem motivação para jogar. A qualquer idade, se você quiser levar a sério e tem algum nível competitivo, existem alguns torneios e circuitos organizados para quem quer jogar e se desafia a isso. Cada um com o seu pequeno objetivo para começar.
K - Nas clínicas aqui eu imagino que uns 7 ou 8 mil, que estão espalhados por ai.
K - Também.
K - Não, eu estou um pouco afastado. Eu participo de cursos como palestrante e como organizador.
K - Tem 12 meninas e 5 meninos que moram aqui, de 13 a 18 anos.
K - A escola vem até aqui. Tem um programa de educação à distância no qual, uma vez por semana, a escola vem até aqui (matemática física e química) e as outras matérias são avaliadas através de projetos, lições de casa, trabalhos etc. As provas são feitas na escola. Esse processo também com a escola de inglês, pois elas precisam aprender o inglês para o vestibular americano. Tudo aqui é exigente, é um internato militarizado, muita disciplina e regras. Aqui elas, além de treinar pelo menos 2X ao dia, tem acompanhamento nutricional e de fisioterapeutas, ou seja, já são pequenas profissionais.
K - Eu não sei o que vai acontecer, nem quanto tempo vai demorar, eu sei do trabalho que tem que ser feito. Porque no esporte, é muito difícil dizer se vai dar certo ou não. Mesmo com os meninos e meninas que tem um certo talento aqui, é difícil prever o que acontecerá. Quanto mais participarem do programa maiores serão as chances de vencer.
K - Não só como jogador ou como treinador, o campo é totalmente aberto, e quem se empenha eu acho que consegue, ai é uma questão de número de horas. Por exemplo, se você quer ser juiz, não vai ser nas primeiras experiências que você vai conseguir um resultado brilhante, como em quaisquer outras profissões.Tem um exemplo de um aluno aqui que não é um grande jogador, mas quer ser professor de tênis. Então ele veio pra cá, para aprender e jogar tênis bem, e depois vai fazer educação física. Até já falei que daqui a alguns anos ele virá trabalhar aqui.Também é verdade que muitos professores de tênis começaram como pegadores de bolas, eles acabam caindo na quadra, aprendendo a jogar e virando professores de tênis. São heróis, pois eles têm que trabalhar para ajudar a família e acabam se encantando pelo esporte. Foram bem recebidos e conseguiram se comportar de uma forma aceitável no mundo do esporte. Tem pegadores que viraram jogadores profissionais também.
K - Continuar aprendendo. Ficar ligado no que está acontecendo, nas tendências, nas pessoas que surgem, nos jogos, nos países que tem mais recursos e ver o que eles estão fazendo. Por que o esporte é muito dinâmico, vai sempre mudando. São as tendências que vão fazendo a gente acreditar e te levam de um lado para o outro. Mais acho que a maior missão é continuar motivado a aprender, passar as coisas e as informações que eu estou recebendo.
K - Gostaria de ver esses meninos e meninas triunfarem, pode ser no tênis profissional, ou na vida, sendo grandes estudiosos ou profissionais em outras áreas. Por exemplo, tive um aluno que foi preparado para o tênis, saiu do país para jogar e estudar, e acabou abrindo sua própria empresa. Estamos falando de profissão, de carreira, porém, o tênis é um esporte, é lazer, é saúde.
K- Acho que é a vontade que ele tem de se dedicar ao esporte, de treinar, de corrigir os erros, ou seja, de evoluir.
K - O amor pela profissão, a dedicação.
K - Não, agora estou em outra etapa. E estou curtindo muito. Hoje, o que eu faço é mais importante para mim, do que quando eu era tenista. Essa molecada, essas pessoas que estão aqui...
Acesse o site do Kirmayr:
www.kirmayr.com.br
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