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07/08/2008

Carlos Alberto Kirmayr

Kiki, Carlão, Alemão. Todos esses são apelidos do tenista considerado por muitos o melhor duplista da história do Brasil. Carlos Alberto Kirmayr nasceu em 23 de setembro de 1950, em São Paulo.

Destro, Kirmayr começou no tênis aos quatro anos de idade, quando já chamava a atenção pela sua qualidade. Com 19 anos, mudou para os Estados Unidos, onde lavava as quadras da Universidade de San Jose, na Califórnia, aprendia a falar inglês e, o mais importante, jogava tênis. Em 71 participou da sua primeira Copa Davis, defendendo o país nesta competição por 15 anos.

Foi o melhor brasileiro no ranking mundial durante cinco anos e derrotou feras como Ivan Lendl, Ilie Nastase e John McEnroe. Kirmayr parou de jogar para se tornar técnico. De 90 a 95 treinou Gabriela Sabatini, campeã do US Open em 1990 e finalista em Winbledon.

Mesmo tendo encerrado sua carreira de jogador, Kirmayr nunca largou definitivamente o tênis, atuando em torneios de masters, cursos de capacitação de técnicos na CBT e como colunista especializado em tênis do jornal Lance!

Completou vinte dois anos de atividades no Kirmayr Hotel Fazenda em Serra Negra por onde já passaram mais de 6.000 participantes. Atualmente, dedica grande parte do seu tempo ao projeto do Centro de Treinamento Kirmayr no Hotel Fazenda Kirmayr, onde tem o projeto de desenvolvimento de novos talentos do tênis.

Brasil Profissões - Com qual idade você começou a jogar tênis?

Kirmayr - Comecei a jogar e treinar tênis ainda no infanto-juvenil. Em primeiro lugar, por amor ao esporte. Mas, já sabia que o tênis profissional não tinha muito horizonte. Se hoje é fechado, antes era mais ainda.  Quando eu tinha mais ou menos 20 anos, morava e estudava nos Estados Unidos e vim passar férias no Brasil. Ganhei um torneio e entrei na equipe brasileira da Copa Davis. Foi aí que percebi que eu tinha, inclusive, nível técnico para ter uma chance. Achei que poderia ser um profissional e gostei da idéia.

BP - Foi a realização de um sonho de criança?

K - Não foi um sonho de criança. Gostava do esporte e admirava os ídolos que eu tinha.

BP - Nos Estados Unidos, além de jogar tênis, você estudava. O que você estudava?

K- Eu estudava Marketing como primeira cadeira e Educação Física como segunda.

BP - Foi então quando você veio ao Brasil e entrou para a equipe da Copa Davis que percebeu que poderia ser um profissional?

K - Percebi e tive a chance. Ganhei uma passagem e fui pra Europa. Aí eu disse: “É isso que eu quero”.

BP - O jogador profissional de futebol, por exemplo, mesmo naquela época, já começava mais cedo. Você teve alguma orientação para se tornar um profissional?

K - Não, naquela época ainda não existia isso.

BP - De onde surgiu essa paixão pelo esporte?

K - Na família. Meu pai era do esporte, a vida dele sempre foi esporte. Meu avô também tinha sido professor de educação física. Sempre freqüentava os clubes com meus pais. Primeiro o Banespa, depois o Indiano, em São Paulo, capital. Eu ia atrás, sempre ficava pelas quadras esportivas.

BP - Você teve alguma preparação especial para se tornar um profissional?

K - Olha, não teve muita coisa de diferente. Porque o meu dia-a-dia já era do esporte, era saudável. Passava muitas horas fazendo esporte, me exercitando, tinha o hábito de dormir cedo e de me alimentar bem. Então, não mudou muito.  O que mudaram foram as minhas preocupações, pois na época de universitário, eram a escola e o tênis. Já quando acabou a universidade, era só o tênis. A partir daí ficava duas vezes mais em quadra do que ficava antes.

BP - Nessa época você já tinha um técnico só seu?

K - Não, isso aconteceu muito mais tarde. Na verdade, técnicos como os de hoje, não existiam. Essa história de técnico acompanhar jogador, e de cada jogador ter o seu técnico é novidade, coisa do mundo milionário.

BP - O que foi fundamental para a sua carreira de jogador profissional?

K - Eu dividiria a minha vida profissional em duas partes. Uma parte, foi a do puro amor e do estilo de vida, viajar e fazer tudo do meu jeito. A outra parte, foi a que mudou a minha atitude e me tornou um jogador profissional diferente. Foi quando aos 27 anos, eu consegui um patrocinador, montamos uma equipe e então eu passei a ter um técnico, o Paulo Cleto, quem realmente me ajudou. A partir dali eu já não brigava sozinho, tinha um mentor para, inclusive, lapidar coisas que eu não via. Coisas que eu não queria ver, ele via; coisas que eu queria fazer do meu jeito, ele me aconselhava a fazer de outro jeito. Ele dizia:  “Assim você vai ficar patinando, faz do outro jeito”.
Então, a possibilidade de ter tido um técnico e um patrocinador na época que eu tive fez toda a diferença, inclusive em me levar ao nível que eu acabei chegando, ao melhor que eu pude chegar. Ter um técnico, naquele momento, me deu um status de potencializar toda a experiência que eu já tinha e todas as horas em conhecimento que tinha adquirido. Com um mentor me ajudando a pensar, trabalhar e tomar decisões mais profissionais.

BP - Você gostava do estilo de vida de ser jogador, mas qual era o sacrifício na época?

K -  Não tinha nenhum sacrifício para mim. Quando acabava o torneio ou se eu já estava fora, a minha motivação era: "Para onde eu vou agora", " Qual o próximo hotel”, “Como vai ser o meu quarto?”.

BP - Hoje as coisas acontecem muito mais rápido, os jovens, desde cedo já começam a colher os frutos do seu trabalho. Você ganhou muito dinheiro como jogador profissional?

K - Isso é verdade, na área do esporte tudo acontece muito mais cedo mesmo. Quem jogava na época que eu joguei, jogava porque amava o esporte e o estilo de vida, dinheiro não tinha. O estilo de vida era legal, afinal quem naquela época tinha dinheiro para passar um ano fora pelo mundo? Era o começo do tênis profissional, os prêmios eram muito menores, então dinheiro como jogador profissional eu não ganhei, trocava seis por meia dúzia. Valeu a pena pelo prazer do estilo de vida, pela experiência que eu acabei tendo e pelas pessoas que eu conheci. Essa foi a parte valiosa daquele momento. O dinheiro começou a ser um pouquinho melhor como técnico.

BP - Naquela época você já tinha uma visão de futuro, imaginando o profissionalismo que o tênis atingiria e se colocando como um profissional que iria permanecer no tênis?

K - Já, nessa época, tinha o desejo e o sonho de ser o que eu sou hoje. Antes mesmo de chegar a algum lugar como profissional, eu já tinha uma participação em uma academia de tênis em Brasília. Que era justamente a sementinha do que acontece hoje em Serra Negra. Eu me empenhei em conhecer a parte técnica de ser treinador, de ensinar ( eu tinha 22 ou 23 anos). Eu nem jogava direito ainda, em relação ao que eu acabei jogando, mas já tinha a visão de que um dia eu iria parar. Não sabia quanto tempo iria demorar, mesmo porque, quando se é esportista, a situação é muito frágil, você pode torcer o pé e nunca mais jogar. Então, eu sempre sonhei em ser treinador.

BP - Quando você decidiu parar como jogador profissional?

K - Decidi porque estava querendo outras coisas, eu já estava patinando, e estava sendo o 100/120 do mundo, enfim, eu não ia mais para frente. Aí eu parei um ano, quando a Nathalie, minha filha, nasceu. Aí, por voltar ao circuito como técnico de outro jogador, eu voltei a jogar e joguei por mais 3 anos.

BP - Qual a mais alegre lembrança da sua vida como jogador profissional?

K - Não tenho uma lembrança específica. Eu acho que o mais importante foi o prazer de ter fechado o ciclo inteiro. De ter jogado sozinho e em duplas. O todo, o poder de ter sido um tenista profissional. Tive grandes vitórias, momentos de reconhecimento, como poder representar o Brasil em Copas Davis, isso era maravilhoso. Quando eles tocavam o hino, eram lágrimas nos olhos, momentos de emoção até hoje.

BP - Você pode dizer que o jogador de hoje entra na quadra pensando no dinheiro que vai ganhar?

K - Se ele é “duro” sim. Se ele já tem alguns milhões acho difícil (entre risos). Eles entram pelo desafio, para quebrar recordes, por orgulho próprio, enfim.

BP - O que mudou na sua vida na transição de jogador profissional para treinador?

K - Veio muito natural, pois eu sempre pensei que isso aconteceria. Desde o momento em que viemos para Serra Negra, que eu via a molecada começando a jogar, e eu ainda jogava, comecei a orientar. Veio muito natural, passar experiências, informações que eu tinha da minha própria visão do jogo para os outros. Não me senti recalcado, sempre me senti bem.

BP - O que é bom e ruim como técnico?

K - O bom é quando você tem um jogador ou uma jogadora que estão afim, que querem, que estão sempre prontos pra te ouvir, que não relutam em abrir a guarda, abrem e são receptivos, tentam fazer o que você está orientando, e assumem a responsabilidades e os riscos. E não culpam o técnico. E é claro que cabe ao técnico também ver como é essa pessoa, qual a linha de comunicação dela.

BP - Aqui no Brasil, que nomes você treinou?

K - Treinei o Ricardo Camargo, Cássio Motta, Vanessa Menga, Flávio Camargo, Dácio Campos, José Amin, entre outros importantes.

BP - E lá fora?

K - Gabriela Sabatini, Arantxa Sánchez, Conchita Martinez, Cedric Piolin, Nicolas Pereira, entre outros.

BP - Como você vê a sua fase profissional atual, aqui em Serra Negra, que você tem um centro de treinamento para jovens que estão iniciando no tênis?

K- Na verdade eles estão iniciando a parte séria, já treinaram um pouco, já tem uma noção e agora fazem parte de dois programas. Um programa para o tênis profissional, com algumas meninas que estão aqui com este objetivo. E tem o programa que é justamente o que eu fiz, que é o programa universitário. Inicialmente, pelas dificuldades de se tornar profissional aos 18 anos e não ter a grana que é necessário para se bancar 4 ou 5 anos lá fora. Esse dinheiro que precisa, após os 18 anos, tem que ser entre 200, 300 mil dólares. Poucos são os que têm e se não existe um patrocinador que o faz, dificilmente vão conseguir. O que o programa de estudo universitário americano faz, é bancar 4 anos de estudo, dá uma bolsa, paga tudo, e o estudo é superinteressante . Aqui preparamos o aluno, que quer ser um profissional, ele fica qualificada para seguir o seu caminho via bolsa de estudo nos EUA, que vai ser o seu veículo para se manter durante um tempo para ir para o circuito. Aí ele está preparado para adquirir maturidade, experiência que precisa, que raros são os que conseguem atingir a carreira profissional. As universidades pagam esses 4 anos de vida, que o jogador continua treinando, jogando, mais um calendário competitivo bem desafiante, sério, profissional.

BP - Hoje você pode dizer que consegue “fabricar” novos talentos?

K - Hoje, aqui, tenho um centro de treinamento especializado em dar tudo que o jogador precisa e mantê-lo o máximo de tempo na quadra. Com isso conseguimos diminuir o tempo para o jogador chegar lá. O grande desafio, agora, é antecipar a profissionalização dos jogadores, com mais horas de treinamento.

BP - Você acha que para o jogador tornar-se profissional ele precisa sair do Brasil?

K - Acho. Quando o jogador quer se tornar profissional, e ele já tem uma grana, ou também se já é bom aos 18 anos, em qualquer uma dessas hipóteses ele tem que sair do país. Jogar aqui no Brasil, geralmente não se sustenta. O circuito viaja o mundo inteiro, tem que ir atrás desses torneios, aqui não tem torneios suficientes.

BP - Aqui em Serra Negra você tem o centro de treinamento onde você recebe e cuida de jovens que podem seguir pelo caminho profissional, e você também tem as chamadas clínicas de tênis, que vem profissionais de outras áreas como médicos, advogados, publicitários, enfim, para jogar tênis como uma diversão. Você chama de tênis competitivo isso, como funciona?

K - Olha é um tênis social. É para pessoas que não vivem de tênis, mas que amam o esporte e que tem motivação para jogar. A qualquer idade, se você quiser levar a sério e tem algum nível competitivo, existem alguns torneios e circuitos organizados para quem quer jogar e se desafia a isso. Cada um com o seu pequeno objetivo para começar.

BP - Quantos já passaram por aqui nesse "tênis social"?

K - Nas clínicas aqui eu imagino que uns 7 ou 8 mil, que estão espalhados por ai.

BP - Você também capacitou professores de tênis?

K - Também.

BP - Você ainda faz esse programa profissional?

K - Não, eu estou um pouco afastado. Eu participo de cursos como palestrante e como organizador.

BP - E sobre o programa de profissionalização desses jovens. Quantos têm aqui?

K - Tem 12 meninas e 5 meninos que moram aqui, de 13 a 18 anos.

BP - Elas estudam na cidade?

K - A escola vem até aqui. Tem um programa de educação à distância no qual, uma vez por semana, a escola vem até aqui (matemática física e química) e as outras matérias são avaliadas através de projetos, lições de casa, trabalhos etc. As provas são feitas na escola. Esse processo também com a escola de inglês, pois elas precisam aprender o inglês para o vestibular americano. Tudo aqui é exigente, é um internato militarizado, muita disciplina e regras. Aqui elas, além de treinar pelo menos 2X ao dia, tem acompanhamento nutricional e de fisioterapeutas, ou seja, já são pequenas profissionais.

BP - Qual sua expectativa para o tênis brasileiro. Você acha que teremos muitos profissionais no circuito internacional?

K - Eu não sei o que vai acontecer, nem quanto tempo vai demorar, eu sei do trabalho que tem que ser feito. Porque no esporte, é muito difícil dizer se vai dar certo ou não. Mesmo com os meninos e meninas que tem um certo talento aqui, é difícil prever o que acontecerá. Quanto mais participarem do programa maiores serão as chances de vencer.

BP - O que você fala para os jovens de 18 anos que estão aprendendo a jogar tênis, você acha que é possível ele se tornar profissional?

K - Não só como jogador ou como treinador, o campo é totalmente aberto, e quem se empenha eu acho que consegue, ai é uma questão de número de horas. Por exemplo, se você quer ser juiz, não vai ser nas primeiras experiências que você vai conseguir um resultado brilhante, como em quaisquer outras profissões.Tem um exemplo de um aluno aqui que não é um grande jogador, mas quer ser professor de tênis. Então ele veio pra cá, para aprender e jogar tênis bem, e depois vai fazer educação física. Até já falei que daqui a alguns anos ele virá trabalhar aqui.Também é verdade que muitos professores de tênis começaram como pegadores de bolas, eles acabam caindo na quadra, aprendendo a jogar e virando professores de tênis. São heróis, pois eles têm que trabalhar para ajudar a família e acabam se encantando pelo esporte. Foram bem recebidos e conseguiram se comportar de uma forma aceitável no mundo do esporte. Tem pegadores que viraram jogadores profissionais também.

BP - E qual a sua missão hoje, como profissional do tênis?

K - Continuar aprendendo. Ficar ligado no que está acontecendo, nas tendências, nas pessoas que surgem, nos jogos, nos países que tem mais recursos e ver o que eles estão fazendo. Por que o esporte é muito dinâmico, vai sempre mudando. São as tendências que vão fazendo a gente acreditar e te levam de um lado para o outro. Mais acho que a maior missão é continuar motivado a aprender, passar as coisas e as informações que eu estou recebendo.

BP - Você tem algum sonho específico?

K - Gostaria de ver esses meninos e meninas triunfarem, pode ser no tênis profissional, ou na vida, sendo grandes estudiosos ou profissionais em outras áreas. Por exemplo, tive um aluno que foi preparado para o tênis, saiu do país para jogar e estudar, e acabou abrindo sua própria empresa. Estamos falando de profissão, de carreira, porém, o tênis é um esporte, é lazer, é saúde.

BP - O que define o sucesso de um profissional do tênis?

K- Acho que é a vontade que ele tem de se dedicar ao esporte, de treinar, de corrigir os erros, ou seja, de evoluir.

BP - Você falou que todas as profissões têm alguma coisa em comum. O que é?

K - O amor pela profissão, a dedicação.

BP - Você não sente saudades de jogar?

K - Não, agora estou em outra etapa. E estou curtindo muito. Hoje, o que eu faço é mais importante para mim, do que quando eu era tenista. Essa molecada, essas pessoas que estão aqui...

Acesse o site do Kirmayr:
www.kirmayr.com.br

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Comentários desta matéria:

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jose roberto pereira junior
adorei ler isso, concerteza aprendi muito com as perguntas e respostas feitas no bp. enfim, treinei 7 anos tennis de mesa, fiquei um pouco parado para estudar, onde me formei em contabilidade, e hoje pratico tennis de quadra, onde estou indo muito bem, ate por que , o estilo do jogo é o mesmo, so muda a tecnica , enfim, gostaria de saber como faço para me aperfeicoar mais ainda? como eu faço para ir longe com o tennis? eu treino no tennis club aqui em indaiatuba. agradeço pelos comentarios, isso é bom para os atletas de quaisquer esperto. parabens por tudo
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